Mosteiro Budista Tibetano Sakya Tsarpa Thupten Dekyid Öedbar Ling

Ensinamentos da Tradição Sakya


Khenchen Appey Rinpoche

Um Resumo das Qualidades do Estado Búdico

O sofrimento ou insatisfação é a base e a realidade inquestionável da vida. O sofrimento atormenta a todos os seres vivos, sem exceção, por mais que eles tentem escapar disso e alcançar a felicidade. Um indivíduo inteligente e compreensivo não pode evitar se angustiar com esse sofrimento que tudo permeia, pois ele sabe que os outros seres sencientes são iguais a ele na sua busca pela felicidade. O sofrimento, portanto, também pode se tornar uma oportunidade para o exercício da compaixão — o desejo sincero de libertar todas os seres de seus tormentos. Um budista Mahayana não se prende somente em desenvolver uma atitude compassiva. Ele ou ela também chegam à conclusão de que somente um Buddha perfeitamente desperto pode, realmente, libertar os outros de sua aflição. Então, o budista decide que, para poder beneficiar e libertar todos os seres sencientes, terá que alcançar a realização do estado búdico.

É claro que o mero pensamento ou resolução de alcançar o estado desperto, por si só, não é suficiente para levar a efeito a sua realização. O estado búdico só pode ser desperto através das causas corretas e não pela ausência dessas causas, ou de causas erradas. Estas causas corretas são o cultivo dedicado, por um período de tempo extremamente longo, das seis perfeições (paramita) do bodhisattva e de dois conjuntos preparatórios de mérito (punya) e de sabedoria (jnana). Para que se possa fortalecer a própria resolução de cultivar aquelas causas do estado búdico, é útil familiarizar-se somente com os tipos de realizações em que se baseiam. Portanto, darei uma breve explicação das principais qualidades do estado búdico, de acordo com suas cinco divisões tradicionais de corpo, fala, mente, qualidades e atividades.

Corpo Iluminado

De acordo com as escolas shravakayana, os "aspectos do corpo" ou "corpo" (kaya) do Buddha, são duplos. A sabedoria da mente do Buddha sem mácula — sua perfeita realização do caminho da verdade — é o "corpo do dharma" (dharmakaya). A forma física do Buddha Shakyamuni, que nasceu em Lumbini, e que atingiu o estado búdico em Bodh Gaya, é considerado por eles como "o corpo da forma" (rupakaya).

Dharmakaya — O dharmakaya é constituído por três realizações inseparáveis:

  • o dharmadhatu da original natureza pura da mente;

  • o dharmadhatu da pureza da mente que ocorre através da liberação de todas as marcas e faltas adquiridas;

  • a compreensão da sabedoria que é sem impureza (asrava).

A sabedoria ou conhecimento transcendente, além disso, inclui vinte e uma categorias de características livres de máculas. Isso inclui os trinta e sete fatores que propiciam a Iluminação, as quatro realizações sem limites, as oito liberações e assim por diante.

Sambhogakaya — As três principais características do "corpo dos prazeres" são:

  • que ele possui as trinta e duas marcas físicas do estado búdico;

  • que ele tem as oito características físicas auspiciosas;

  • que se compromete a ensinar somente o Mahayana.

Estas características podem ser estudadas, com mais detalhes em outras fontes.

Nirmanakaya — O "corpo de emanação" é o agente de várias atividades iluminadas em benefício de todos os seres sencientes. Ele é permanentemente ativo, manifestando-se onde quer que haja seres a serem ensinados, e continuará a se manifestar enquanto os reinos de existência cíclica (samsara) não estejam vazios de seres sencientes. Há três tipos de "corpos de emanação":

  • "emanações de nascimento": estas são as manifestações de Buddhas como deuses, habitando os reinos divinos como o Tushita;

  • "emanações da forma": estas são numerosas e incluem várias formas diferentes projetadas pelo Buddha, no interesse de converter e beneficiar os outros, como o tocador de alaúde (vina) que converteu Supriya, o rei dos Gandharvas;

  • "emanação elevadíssima": esta é a emanação que manifesta a realização do estado búdico no mundo, como o nosso grande mestre, Shakyamuni.

Fala Iluminada

Somando-se às qualidades de "corpo", o Buddha tem muitas qualidades singulares de voz. O Buddha, por exemplo, pode responder simultaneamente a muitas perguntas, respondendo-as ao mesmo tempo e em diversas línguas.

Estas qualidades extraordinárias normalmente são ensinadas dentro de uma especificação de sessenta e quatro delas. Elas incluem melodia da fala; o som que aumenta as raízes de mérito dos discípulos que a ouvem; a brandura que aquieta as mentes dos outros, pelo seu som; e o encanto que desperta a consciência de seus ouvintes. A lista de sessenta e quatro qualidades, no entanto, não é uma enumeração exaustiva; ela apenas indica, através de exemplos, a grande diversidade destas qualidades.

Mente Iluminada

A mente iluminada é a sabedoria (jnana). Ela é única, mas possui muitos aspectos e, neste caso, falamos de quatro sabedorias.

  • A primeira delas é "a sabedoria semelhante ao espelho", que é a parte da sabedoria que não contempla nem o sujeito perceptivo, nem o objeto percebido.

  • A segunda é a "sabedoria da igualdade", que é a parte da sabedoria que não reside nem na existência cíclica, nem na cessação do nirvana.

  • A terceira é a "sabedoria discriminativa", que é a parte da sabedoria que conhece os objetos em sua multiplicidade e variedade.

  • A quarta é a "sabedoria da ação de realização", que é a parte da sabedoria na qual o Buddha compreende as personalidades e as tendências dos seres sencientes.

Por outro lado, quando a sabedoria é ensinada como tendo dupla divisão, é da seguinte forma:

  • Primeiro é a sabedoria pela qual o Buddha percebe a realidade última de todas as coisas conhecidas, exatamente como elas são; esta é a sabedoria do nível da realidade última.

  •  A segunda é a sabedoria pela qual o Buddha percebe todas as coisas conhecidas, nas suas variedades e multiplicidades; esta é a sabedoria do nível superficial da verdade.

Qualidades Iluminadas

O estado búdico é descrito por suas qualidades (gunas), as quais formam as quatro categorias tradicionais. Elas, até certo ponto, sobrepõem-se às outras categorias, e normalmente são ensinadas como sendo sessenta e quatro qualidades, que compreendem as trinta e duas qualidades do dharmakaya e as trinta e duas dos rupakayas.

O primeiro grupo das trinta e duas qualidades tem três subdivisões: os dez poderes (bala), os quatro tipos de destemor e as dezoito características específicas do Buddha. Os poderes do estado búdico incluem o discernimento do que é possível e impossível; o poder do conhecimento que compreende serem as ações e suas conseqüências, responsabilidade de cada um; e o poder do conhecimento das diversas disposições mentais dos seres sencientes. Os quatro tipos de destemor referem-se à confiança imperturbável pela qual o Buddha se apresenta numa reunião antagônica; sua realização da sabedoria e a eliminação de todas as máculas, propiciam os ensinamentos em benefício da salvação dos outros e a remoção das coisas que obstruem o caminho espiritual. Das dezoito características do Buddha, destacam-se as seguintes qualidades de conduta: ele estar livre de erros e de acidentes; de pronunciar declarações tolas; de permanecer em estados de não-concentração ou não-meditativo e; de ter lapsos de memória.

O segundo grupo das trinta e duas qualidades, referentes à sua forma física, consiste nas trinta e duas marcas do ser magnificente. Elas incluem a imagem de uma roda nas palmas das mãos e nas solas dos pés, uma membrana bem fina entre os seus dedos, a protuberância (ushnisa) no topo de sua cabeça e um tufo de cabelo encaracolado entre as sobrancelhas.

Assim como as outras qualidades da iluminação, estas não esgotam as qualidades do Buddha, pois elas são ilimitadas e infinitas como o céu. Por mais longe que possamos avançar, em qualquer direção no espaço, jamais conseguiremos alcançar o final do espaço, da mesma forma, jamais poderemos fazer uma listagem de todas as qualidades do estado búdico. Quanto mais qualidades enumerarmos, sempre haverá, mais e mais, a serem registradas.

Atividades Iluminadas

As atividades do estado búdico podem ser explicadas segundo dois princípios diferentes. Primeiramente, podem ser ensinadas em termos de níveis a serem direcionados. As atividades do Buddha:

  • organizam os discípulos de acordo com o caminho espiritual — por exemplo, entidades físicas adequadas, tais como os seres humanos;

  • elas estabelecem os discípulos no caminho da prática — por exemplo, no caminho da acumulação, da disciplina, da compreensão etc.;

  • elas organizam os discípulos de acordo com o resultado espiritual — por exemplo, no perfeito estado búdico.

O segundo princípio é que estas atividades podem ser explicadas da forma como se manifestam. Elas podem parecer:

  • sem esforço e espontaneamente;

  • sem discriminação ou parcialidade;

  • semelhante às atividades de todos os Buddhas;

  • como um processo contínuo, sem fim;

  • por meios hábeis variados;

  • de forma que sejam adequadas ao discípulo;

  • como proteção contra os erros do samsara e do nirvana.

Isto acima é uma mera mostra do alcance e da natureza das atividades do Buddha. Na realidade, Ele pode realizar atividades, sem limites, a todo o momento. E estas atividades sempre permanecem, sem recuar, enquanto perdurar o ciclo de existência.

Conclusão

Nossas escrituras ensinam que o simples fato de ouvir o nome do Buddha garantirá ao ouvinte uma existência humana no futuro. E elas também afirmam que, ao ouvir o nome glorioso, os seres sencientes terão plantado em suas mentes uma semente cujo amadurecimento resultará no estado búdico. E como falar sobre o Buddha é tão benéfico, considero-me afortunado de poder estar aqui, explicando um pouco sobre as gloriosas qualidades e realizações do Buddha.


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