Mosteiro Budista Tibetano Sakya Tsarpa Thupten Dekyid Öedbar Ling

Ensinamentos da Tradição Sakya


Lama Thubten Choedak Rinpoche

As Onze Qualidades Extraordinárias do Lamdre

Os ensinamentos do Lamdre são baseados no Hevajra Tantra. Eles foram recebidos inicialmente por Virupa, mahasiddha indiano do século VII, que fundou a linhagem e transmitiu os ensinamentos a uma linha de discípulos na Índia. Virupa também escreveu instruções capitais conhecidas como Vajragatha. Porém, como estas eram muito codificadas e difíceis de entender, o Lamdre foi transmitido como uma tradição oral durante alguns séculos. Os ensinamentos foram levados ao Tibet por Drogmi na metade do século IX e mais tarde foram codificados no século XII por Sachen Künga Nyingpo, que também escreveu onze comentários.

O Lamdre é um caminho completo para a iluminação. Ele é ensinado em um único lugar por um único professor durante um período de muitas semanas. Ele não é oferecido em segmentos separados. É uma transmissão tanto dos ensinamentos exotéricos quanto dos esotéricos, por um detentor de linhagem oficialmente reconhecido. Ele não pode ser oferecido por "professores" auto-proclamados para atrair multidões. Dentro da linhagem sakyapa, na qual está a linhagem do Lamdre, temos apenas alguns detentores de linhagem a cada geração. É importante estar consciente de que apesar de algumas pessoas poderem ser muito instruídas nos ensinamentos e conhecerem o tópico muito bem, elas não são necessariamente qualificadas para dar a transmissão. [...]

O termo Lamdre é tibetano. Lam significa caminho, dre significa resultado. A palavra como um todo significa "o caminho incluindo seu resultado". O Lamdre está intimamente envolvido com o Hevajra Tantra, um dos principais tantras na classe dos Anuttara Yoga Tantras mais elevados do budismo. Ele contém todos os ensinamentos budistas, tanto nos níveis comuns quanto nos extraordinários. Nesta palestra, focalizarei as características extraordinárias do Lamdre, que são os ensinamentos sobre e como os estudantes se beneficiarão a partir dele. Tradicionalmente, estas qualidades extraordinárias são conhecidas como as "Onze Grandezas do Lamdre".

Normalmente, tendemos a fazer uma firme distinção entre caminho e meta, ou resultado. O caminho geralmente parece muito difícil e o nosso progresso muito lento! Nos encontramos desejando pelo resultado, desesperados por um caminho mais rápido para alcançar aquela meta evasiva. Nem sempre percebemos que aquilo que experienciamos no caminho efetivamente importa para a meta.

A primeira característica principal do Lamdre é o fato de que o caminho efetivamente inclui o resultado. O resultado não é algo que ocorre no fim da linha. Ele está acontecendo continuamente a partir do momento em que começamos. Portanto, não precisamos esperar pelos resultados. Eles surgem a cada dia a partir da nossa prática. Todo o Lamdre é sobre a prática. Ele é a nossa experiência durante a prática que autentica o caminho. Por outro lado, as pessoas que não praticam não têm como experienciar o resultado. Elas podem desenvolver um entendimento intelectual dos ensinamentos do Lamdre, mas isso será tudo. De fato, qualquer caminho religioso que não inclua a prática é vazio de experiência real, e portanto é de benefício limitado. Nunca devemos nos esquecer que o caminho é o resultado. De outro modo, quando começamos a praticar prostrações, por exemplo, podemos nos sentir amedrontados por quantas ainda devem ser feitas. Mas devemos tentar desenvolver humildade suficiente para sermos felizes com o que planejamos fazer a cada dia, ao invés de nos esforçarmos por grandes números. Uma vez que recebamos o Lamdre e que comecemos a incorporá-lo em nossas vidas diárias, não somos mais intimidados pelo abismo entre o que estamos fazendo e o que permanece a ser feito. Paramos de distinguir entre caminho e resultado.

A segunda característica extraordinária é a de não ver o resultado como sendo maior que o caminho. Assim como o caminho não está separado do resultado, o resultado não está separado do caminho. Em um nível de entendimento mais elevado, esta é a realização da não-existência de qualquer dualidade entre bem e mal. Os conceitos dualistas produzem muitíssimo do nosso sofrimento. Muita da nossa dor pode ser anulada quando realizamos esta inseparabilidade de caminho e resultado. O caminho de cada indivíduo é diferente, claro. Se o seu próprio caminho for efetivado, ele é a realização do caminho no resultado para você. A pessoa que realizou o resultado não assumirá que ela pavimentou o caminho para os outros seguirem. Não há estrada para a iluminação, há apenas pegadas. Algumas pessoas muito ousadas planejam criar seus próprios caminhos novos através das suas experiências. Podemos ler suas biografias e obter grande inspiração, mas nunca viajaremos exatamente pela mesma estrada. Por exemplo, não podemos duplicar totalmente as atividades do Buddha. Mas podemos usar seus ensinamentos como um guia para pavimentarmos o nosso próprio caminho. Esta é uma característica importante do budismo. O ensinamento é o nosso refúgio e o usamos para fazermos os nossos próprios caminhos. Mas não tentamos transformá-lo em uma estrada para os outros.

A terceira característica é a instrução que nos permite transformar todas as nossas percepções através de um entendimento da natureza da mente. Quando uma pessoa conhece a natureza da mente, ele ou ela pode transformar qualquer coisa. Uma vez que aprendamos a governar nossa mente, não seremos mais controlados pelo reflexo da mente em relação aos eventos e circunstâncias. Podemos transformar todas as nossas percepções. Por outro lado, alguém que é incapaz de governar sua mente sempre vê as coisas como discriminatórias. As pessoas, os lugares e os eventos têm grande poder sobre ele. Às vezes podemos obter um lampejo desta habilidade transformadora. Podemos até mesmo ser capazes de praticá-la nessa ocasião estranha, mas não continuamente. Que liberador é estar livre da tirania dos eventos e circunstâncias! Estou certo de que o Buddha deve ter tido esta realização quando ele se sentou sob a árvore bodhi. Apesar de encarar todos os tipos de circunstâncias adversas, ele permaneceu destemido. Ele pôde transformar tudo em sua vantagem.

Dentro do budismo, existe uma escola de pensamento conhecida como "mente apenas", ou Chittamatra. O Lamdre inclui elementos desta filosofia, ensinando que todos os eventos e percepções não são nada mais que um reflexo da nossa própria mente. Imagine o quão benéfica que esta realização pode ser para as pessoas em simplesmente encarar seus problemas diários!

A quarta característica é a habilidade de transmutar as faltas em qualidades. Podemos ter desenvolvido habilidades ao longo dos anos para evitar situações e pessoas difíceis, na crença errônea de que nós nos protegemos ao nos mantermos longe delas. Mas esta técnica envolve exatamente o oposto. Devemos efetivamente estar próximos das situações e pessoas difíceis para que possamos transformar todas as faltas, obstáculos e adversidades em qualidades e oportunidades. O fato é que todas as faltas estão impregnadas com qualidades. Nossas boas qualidades estão ocultas em nossas faltas. As faltas são mais visíveis que as virtudes. Nos lembramos mais das faltas das pessoas do que de seus pontos bons. Mas se olharmos cuidadosamente para as nossas experiências negativas, descobrimos que elas nos ensinaram muito mais que as positivas. Muito mais do que todos os risos, abraços e presentes que damos uns aos outros. Não aprendemos muito a partir deles. Por outro lado, aprendemos muito a partir dos relacionamentos difíceis. Pode não parecer assim para nós no momento. Mas depois de uma experiência dolorosa, geralmente resolvemos fazer as coisas de um modo ligeiramente diferente no futuro.

Os ensinamentos do Lamdre nos equipam com a habilidade de não evitar as faltas das pessoas, o que realmente significa não evitar as pessoas também. Aprendemos a aceitar tanto as boas qualidades quanto as faltas dos outros. Particularmente, chegaremos a ver suas faltas como nada mais que o reflexo da nossa própria mente! Se quisermos que uma pessoa seja preocupada conosco, normalmente a veremos como despreocupada. Isto é assim porque temos expectativas de pessoas e coisas. Mas se não esperarmos nada, podemos ser agradavelmente surpreendidos. As faltas são inseparáveis das virtudes. São dois lados da mesma moeda. Esta é uma característica importante do caminho que inclui seu resultado. O Lamdre nos ensina a aprender a partir dos problemas, a não rejeitá-los.

A quinta característica é a habilidade de aceitar todos os obstáculos e interferências e transformá-los em atingimentos. Podemos estar certos de que, se perseverarmos face aos obstáculos, atingiremos algo importante. De fato, a menos que nos esforcemos pelos nossos atingimentos, tendemos a considerá-los como garantidos. Os obstáculos testam a nossa paixão pelo resultado. Se estivermos apenas desanimados, é claro que eles nos bloquearão. A maior prova no caminho ocorre na noite anterior à iluminação. Isto é o que aconteceu com o Buddha. Depois de meditar por seis anos, ele foi atacado por um exército de monstros na noite antes de ele atingir a iluminação. Eles empunhavam as armas mais amedrontadoras. Eles o atacaram com montanhas de rochas e lagos de lava derretida. Isto é o que chamamos de "conquista dos maras". Se ele tivesse reagido, perguntando a si mesmo, "Isto é tudo o que eu consigo depois de seis anos de prática?", e tivesse desistindo, seu atingimento teria sido atrasado. Mas ao invés de ser amedrontado pelos maras, o Buddha os viu como objetos de compaixão. Como resultado, ele subjugou todos eles. Ele converteu suas armas em guirlandas de flores. Se você praticar por dez anos e então, durante o décimo primeiro ano, você encarar um grande obstáculo, você deve perseverar. Desistir nesse estágio seria uma perda de dez anos de energia.

Quando nos sentimos sob ataque dos obstáculos, é importante não nos deixarmos ser subjugados. A melhor coisa a fazer é apenas estar lá. Deixe que os obstáculos continuem a vir. Podemos explicar a nós mesmos que, se os suportarmos, isto levará todas as negatividades que persistiram durante nossos dez anos de prática. Deste modo, podemos dar passos maiores em um ano do que fizemos durante os dez anos anteriores. Este teste vem a toda hora nas vidas dos praticantes. Transformar obstáculos em atingimentos requer que nós exercitemos a paciência com nós mesmos e que desenvolvamos um certo grau de humildade. É uma culminação, quase como uma graduação após muitos anos de esforço.

A sexta característica é ser capaz de reconhecer cada experiência. O padrão de experiência será refletido em um padrão de samadhi. A consistência na prática nos permite identificar as máculas. Usando a meditação da permanência calma (shamatha/shine) como exemplo, as pessoas podem sentir que elas não têm desconforto físico e que o corpo não é mais um problema. Agora, o único problema parece ser com a mente. A mente sente-se entorpecida. Mas há chances de que o torpor seja efetivamente físico. O meditador pode não entender isto. Ele pode pensar que está sentado tão bem que o problema provavelmente não pode ser com o seu corpo. É então que precisamos estar conscientes de que é muito difícil remover os agregados físicos. Às vezes s pessoas culpam as vidas passadas. Elas não reconhecem que o problema real é o seu apego ao corpo físico e aos seus confortos. Uma vez que descubram isto, elas poderão apontar problemas posturais. Por exemplo se as costas não estiverem eretas, a mente se tornará preguiçosa. É fácil culpar alguma misteriosa dificuldade mental ou espiritual quando não podemos focar a mente. Porém, geralmente é um problema físico. Para nós, é muito difícil transcender nosso estado físico. O corpo e os sentidos são enganadores e eles iludem a mente. Devemos sempre retornar ao nível físico — o nível no qual estamos, ao invés de procurar pela fonte do problema do lado de fora.

A sétima característica é que, ao reconhecermos os obstáculos, podemos remover as interferências causadas pelos espíritos malignos. Os meditadores atraem espíritos malignos. Conforme aprendemos mais sobre as interferências, não culparemos coisas externas como o clima, uma refeição pesada ou um estômago vazio. Normalmente, tendemos a procurar desculpas fora de nós mesmos. Os espíritos maléficos geralmente invadem os pontos mais fracos do praticante. Eles podem vir na forma de comida para nos tentar. Podem vir na forma de pessoas para nos distrair de nossa prática. Claro que as pessoas não são seres malignos, mas os seres malignos às vezes entram na psique das pessoas. Você nunca sentiu que você não é realmente você quando está fazendo algo, como se alguma força o tivesse tomado? Quando estamos pensando sobre coisas negativas, os espíritos malignos nos dão uma mão. Eles são conhecidos como maras. Mara significa "matar". Eles matam a nossa consciência e nos tomam, de modo que fazemos coisas que normalmente não faríamos. É dito que, se reconhecermos estes obstáculos no caminho, nós não culparemos os objetos concretos. Reconheceremos nossos pontos fracos e aceitaremos o nível que alcançamos. Se pensarmos pensamentos negativos, definitivamente atrairemos vibrações negativas. Os pensamentos negativos também atraem acidentes e má sorte. Por outro lado, pensamentos positivos atraem milagres. Em algumas das meditações, nossas visualizações nos dão a habilidade de comungar com os Buddhas.

A oitava característica é a qualidade de transformar as faltas das outras pessoas em nossos próprios atingimentos espirituais. Quando atravessamos os níveis anteriores e transformamos nossas faltas, podemos perceber que os outros ainda têm faltas. A transformação real vem quando nós percebemos as faltas das outras pessoas como sendo qualidades. Claro que não dizemos efetivamente a alguém, "Você é grandioso, você é um pessoa de pavio curto". Mas se dissermos a nós mesmos que uma pessoa específica tem pavio muito curto e não pudermos suportá-la, isso não nos ajudará a nos desenvolvermos. Apenas nos tornamos exatamente como a pessoa que estamos criticando. A falta deixa de estar apenas na outra pessoa e nos infecta. Ela se tornará parte de nós. Então, qual é o melhor modo de lidar com isso? Uma vez que aprendamos a como transformar nossas próprias faltas em qualidades, devemos começar a tentar transformar as faltas dos outros também. Um modo de fazer isso é olhar para o comportamento negativo da outra pessoa e dizer a nós mesmos, "Isto me lembra como eu costumava me comportar; agora estou vendo na outra pessoa o que eu costumava ser". Quando tivermos transformado as nossas faltas, teremos uma visão mais elevada das tolices dos outros. Não seremos ameaçados por elas. Não faremos julgamentos sobre elas. As faltas dos outros agora permitem que nós nos tornemos mais focados. Elas se tornam uma inspiração. Começamos a aceitá-las como desafios ao invés de obstáculos.

Depois que as pessoas retornam de retiros longos, elas devem tentar sustentar sua nova visão em relação aos outros. Podemos nos tornar bem inofensivos, vivendo uma vida solitária em uma pequena cabana e não interagir com ninguém. Mas o que acontece quando emergimos? O tigre é inofensivo em sua jaula, mas e quando ele escapa? O desafio para nós, praticantes, é achar que as faltas dos outros são tão úteis como as nossas próprias. Uma vez que atinjamos isto, não nos ressentiremos com pessoas "difíceis". Depois de tudo, elas nos ajudam a aprender! Podemos emular o que o Buddha fez sob a árvore bodhi quando ele subjugou os maras. Foi apenas através da derrota sobre os maras que o Buddha pôde obter a vitória. Para nos tornarmos vitoriosos, devemos derrotar nossos oponentes mais poderosos. Estes nada mais são que as nossas percepções das faltas das outras pessoas. Devemos bater a manteiga da realização a partir do leite dos nossos problemas.

A nona característica do Lamdre é que ele nos permite ver a não-contradição entre Sutra e Tantra, moralidade e conhecimento metafísico. De outro modo, muitas pessoas vêem uma contradição entre conhecimento teórico e prático. Algumas podem estar felizes com sua prática, mas são facilmente afetadas pelos julgamentos dos outros. Efetivamente, precisamos de crítica de tempos em tempos. Ela nos testa. Se formos facilmente dissuadidos, isto mostra que nós devemos ser praticantes muitos superficiais. A crítica é uma oportunidade maravilhosa para desenvolver a fé. Se nos tornarmos desencorajados, é porque estamos apegados às formas e conceitos mundanos, ao invés de confiarmos nos significados internos dos ensinamentos.

É dito que uma pessoa abençoada pela transmissão do Lamdre não verá nenhuma contradição entre sutra e tantra, moralidade e espiritualidade, monacato e laicato. Ela não praticará nada contrário aos ensinamentos básicos do Buddha. Por exemplo, em certas cerimônias Vajrayana, é permitido beber um pouco de álcool como uma parte integral do ritual. Mas alguns praticantes bebem garrafas inteiras. Isto transgride um dos cinco preceitos budistas básicos. Como podemos esperar alcançar uma elevada realização do Vajrayana sem o fundamento firme dos cinco preceitos? É importante seguir um caminho completo, ao invés de focar exclusivamente um nível. A prática de um indivíduo pode ser uma fonte de inspiração ou de humilhação para os outros. Um praticante do Lamdre terá igual consideração tanto pelo nível do sutra e quanto do tantra. Podemos não estar acostumado a estes níveis, mas ainda respeitaremos cada um deles e conduziremos uma vida espiritual fundada sobre a base firme da moralidade.

A décima característica é que, assim como o elixir que transforma todos os metais base em ouro, nós recebemos ensinamentos de ouro puro, que transformam todos os problemas da vida. Não vemos mais os problemas como sendo rígidos. Todos os obstáculos tornam-se transformáveis, independente de como eles se originaram. Trataremos os ensinamentos da mesma forma como faríamos como uma jóia de valor inestimável.

A décima primeira característica é que os benefícios dos ensinamentos superam as qualidades do mundo material em todos os aspectos.

É importante não esperarmos demonstrar todas estas qualidades assim que recebamos as seis semanas de ensinamentos do Lamdre. Nós as desenvolveremos gradualmente, mas apenas através da diligência e da prática consistente.


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