Mosteiro Budista Tibetano Sakya Tsarpa Thupten Dekyid Öedbar Ling

Ensinamentos da Tradição Sakya


S.S. Sakya Trizin Ngawang Künga

A Natureza da Mente

Um dos principais ensinamentos do Buddha é a lei do karma, o ensinamento que todas as vidas que temos não são sem causa, não são criadas por outros seres e não são por coincidência, mas são criadas por nossas próprias ações. Todas as coisas positivas tais como o amor, vida longa, saúde boa, prosperidade e assim por diante também não são dadas por ninguém.

É através de nossas próprias ações positivas no passado que hoje usufruímos de todas as coisas boas. De modo similar, todos os aspectos negativos, como vida curta, doença, pobreza, etc. e todas as coisas indesejáveis também não são criadas por um agente externo, mas por nossas próprias ações, as ações negativas que cometemos no passado.

Se desejarmos realmente estar livres do sofrimento e experimentar a felicidade, é muito importante trabalhar nas causas. Sem trabalhar nas causas, não podemos esperar produzir quaisquer resultados. Cada e toda coisa devem ter sua própria causa e uma causa completa — as coisas não podem aparecer sem uma causa. As coisas não aparecem do nada, de uma causa errada, ou de uma causa incompleta. Assim, a fonte de todos os sofrimentos são as ações negativas. As ações negativas significam basicamente não conhecer a realidade, não conhecer a verdadeira natureza da mente. Em vez de ver a verdadeira natureza da mente, nos agarramos a um eu sem qualquer razão lógica. Todos nós temos uma tendência natural de aderir a um eu porque estamos acostumados a isso. É um tipo de hábito que formamos desde tempos remotos.

Entretanto, se examinarmos e investigarmos cuidadosamente, não podemos encontrar o eu. Se houver um eu, ele tem que ser corpo, mente ou nome. Primeiro, o nome é vazio por si mesmo. Qualquer nome pode ser dado a qualquer um. Assim o nome é vazio por si mesmo. Do mesmo modo o corpo. Nós dizemos "meu corpo" justo como "minha casa, meu carro, meu lar, meu país" e assim por diante, de modo que o corpo e o "eu" são separados. Se examinarmos cada parte do corpo, não podemos encontrar em nenhum lugar qualquer coisa chamada "eu” ou a identidade. São apenas muitas coisas juntas que formam o que concebemos como o corpo ou o eu. Se investigarmos com cuidado da cabeça ao dedo do pé, não podemos achar em nenhum lugar uma coisa chamada eu. O corpo não é um eu porque tem muitas partes, muitas partes diferentes. As pessoas podem permanecer ainda vivas sem determinadas partes do corpo, assim o corpo não é o eu.

Do mesmo modo a mente. Pensamos que a mente possa ser o eu, mas a mente está realmente mudando de momento a momento. Todo tempo a mente está mudando. E a mente passada já está extinta, já foi. Algo que já foi não pode ser chamado o eu. E a mente futura deve ainda surgir. Algo que deve ainda surgir não pode ser o eu. E a mente presente está mudando todo tempo, está mudando a cada momento. A mente quando éramos bebês e a mente quando somos adultos são muito diferentes. E estas mentes diferentes não ocorrem de imediato. Estão mudando a todo o momento. Algo que está mudando constantemente não pode ser o eu. Portanto, fora o nome, corpo ou mente, não há nenhuma coisa chamada o eu, mas devido ao longo hábito, nós todos temos uma tendência muito forte para se agarrar a um eu. Em vez de ver a verdadeira natureza da mente, nós nos apegamos a um eu sem qualquer razão lógica. E enquanto fizermos isso, é como confundir uma corda colorida com uma serpente. Até nos darmos conta de que não é uma serpente, mas somente uma corda, temos medo e ansiedade. Enquanto nos prendemos a um eu, temos sofrimento. Apegar-se a um eu é a raiz de todos os sofrimentos. Não conhecendo a realidade, não conhecendo a verdadeira natureza da mente, apegamo-nos a um eu. Quando você tem um "eu", naturalmente existem os "outros" — o eu e os outros. O "eu e os "outros" são dependentes do "eu". Justo como direita e esquerda, se houver uma direita, tem que haver uma esquerda. Do mesmo modo, se houver um eu, existem os outros. Quando você tem um eu e outros, então aparece o apego a nosso próprio lado, a nossos amigos e parentes e assim por diante, e surge o ódio aos "outros" de quem você discorda, as pessoas que têm visões diferentes, idéias diferentes. Estes três são os venenos principais que nos mantêm nesta rede dos ilusões, samsara. Basicamente a ignorância de não saber e aderir a um eu, apego ou desejo, e ódio — estes três são os três venenos principais. E destes três, surgem outras impurezas, tais como ciúme, orgulho e assim por diante. E quando você tem estes, você cria ações. E quando você cria ações, é como plantar uma semente em uma terra fértil que no devido tempo renderá resultados. Desta maneira criamos constantemente o karma e somos aprisionados nos reinos da existência.

Para estarmos completamente livres do samsara, necessitamos da sabedoria que pode cortar a raiz do samsara, a sabedoria que compreende a não existência do eu. Tal sabedoria depende também do método. Sem a acumulação do método, não podemos fazer surgir a sabedoria. E sem sabedoria, não podemos ter o método certo. Tal como necessitarmos de duas asas para voar no céu, necessitamos de método e sabedoria a fim alcançar a iluminação. O método mais importante, o método mais eficaz, é baseado na bondade amorosa, no amor universal e na compaixão, e destes surgem a bodhichitta, ou o pensamento da iluminação, que é o desejo sincero de alcançar a iluminação perfeita para o benefício de todos os seres sencientes. Quando você tem esse pensamento, então todas as ações corretas e virtuosas são obtidas naturalmente. Por outro lado, você necessita de sabedoria, a sabedoria que compreende a natureza verdadeira de todos os fenômenos, e particularmente da mente — porque a raiz do samsara e do nirvana, tudo, é a mente. O Senhor Buddha disse: "não devemos praticar ações negativas, devemos tentar praticar ações virtuosas, e devemos domesticar a mente." Este é o ensinamento do Buddha. A falha encontra-se em nossa mente selvagem, nós estamos presos ao samsara ou o ciclo da existência. A finalidade de todos os oitenta e quatro mil ensinamentos do Buddha é domesticar a nossa mente. Afinal, tudo é a mente — é a mente que sofre, é a mente que experimenta a felicidade, é a mente que é aprisionada no samsara e é a mente que alcança a liberação ou iluminação. Assim, quando a verdadeira natureza da mente é compreendida, todas as outras coisas externas e internas, são então naturalmente percebidas.

Então, o que é a mente? Se tentarmos investigar onde a mente está, não podemos encontrar a mente em nenhum lugar. Não podemos pegar qualquer parte do corpo e dizer, "Isto é minha mente." Logo, ela não está dentro do corpo, não está fora do corpo, e não está entre o corpo. Se algo existe, tem que ser de forma ou cor específica, mas não podemos encontrá-la em nenhuma forma ou cor. Assim, a natureza da mente é a vacuidade. Mas quando dizemos que tudo é vacuidade e não existe, não significa que não existe convencionalmente. Afinal, é a mente que faz todas as coisas erradas, é a mente que faz todas as coisas certas, é a mente que experimenta o sofrimento e assim por diante. Conseqüentemente, existe naturalmente uma mente — nós não estamos mortos ou inconscientes, mas somos seres vivos conscientes — e existe um fluxo constante de continuidade da consciência. Da mesma forma que a luz da vela que está queimando, a claridade da mente continua constantemente. A característica da mente é a claridade. Você não pode encontrá-la em qualquer forma ou em nenhuma cor ou em nenhum lugar, contudo, há uma claridade que continua constantemente. Esta é a característica da mente. E as duas, claridade e vacuidade, são inseparáveis, como o fogo e o calor do fogo são inseparáveis. A claridade e a vacuidade não podem ser separadas. A inseparabilidade das duas é a essência não fabricada da mente. Para experimentar tal estado, é importante primeiro fazer as práticas preliminares. Também, através das práticas preliminares acumulamos mérito. É melhor meditar sobre a sabedoria do insight. Para isso necessitamos preparar a mente atual, nossa mente ordinária que está constantemente em correntes de pensamentos. Tal mente tão ocupada e agitada não será uma base para a sabedoria do insight. Assim, primeiro temos que construir uma base com a concentração, usando o método correto. Através da concentração, tentamos trazer a mente a um estado muito estável. E em tal claridade estável e unifocada, meditamos então na sabedoria do insight e através desta compreendemos a verdadeira natureza da mente. Mas para perceber isso, necessitamos de uma quantidade tremenda de mérito, e o modo mais eficaz de conseguir o mérito é cultivar a bodhichitta. Assim, com os dois juntos, método e sabedoria, podemos compreender a natureza verdadeira. E quando entendemos a natureza verdadeira, com base nisto e sabedoria crescente, eventualmente atingiremos a realização completa e alcançaremos a iluminação.


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